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Posted by : Cah Carvalho 31/05/2017


O texto dessa semana é diferente, ele não é sobre o significado de determinado estilo ou desenho, ele é sobre a História da tatuagem no Brasil, uma história significativa, que está ainda a passos lentos, mas caminhando para a desmarginalização. Isso graças a globalização da arte na pele, exposta frequentemente em revistas, nas novelas, nos filmes, séries, redes sociais...

Pra abordar esse assunto, tive um papo reto com o professor de História, Fernando Garcia, que escolheu tatuagem como tema da sua pesquisa de mestrado, desenvolvida pela UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), no Mato Grosso do Sul. (Então decorem esse nome, porque esse cara está sendo muito importante para nós tatuadores e amantes dessa arte, essa pesquisa desenvolvida pelo Fernando é a primeira no setor da historiografia nacional).

Foto (Camila Cattai): Fernando entrevista Carlinhos - Scorpions Tattoo/SP. Tatuador desde 1980

Já são quatro anos de buscas e entrevistas, que ele compartilhou com a gente. “Comecei essa pesquisa desde a minha graduação em História. Sou apaixonado por tatuagens desde muito antes da pesquisa. Eu estudo aquilo que chamo de ressignificação da tatuagem no Brasil. Ou seja, meu objetivo é compreender o que diabos aconteceu na sociedade brasileira pra que a tatuagem deixasse de ser vista como uma coisa de bandido, e passasse a ser vista como algo normal, até mesmo como uma moda, relativamente bem aceita. Digo relativamente porque, pelo que tenho visto até agora, todo o esforço pra construir uma imagem da tatuagem como algo normal, também ajudou a demarcar QUAIS tatuagens são consideradas normais. Por consequência, aquelas que não se inserem dentro dessas "normas", são até hoje marginalizadas”, explicou. 

Para quem não sabe, Fernando conta que a presença da tatuagem no Brasil é muito antiga. Há um bom número de etnias indígenas que a praticaram no Brasil, não a pintura corporal, mas a tatuagem. Ele conta que a tatuagem começa a se espalhar em nossa sociedade a partir dos marinheiros que vinham nos navios e atracavam nos portos brasileiros, trazendo a tatuagem em seus corpos. Aos poucos, ela se difundiu entre a população que vivia no porto.

O problema: As pessoas que circulavam pelo porto geralmente eram os marinheiros, estivadores (trabalhadores pobres), as prostitutas...além da região portuária ser conhecida como uma zona de boemia. Pra ‘ajudar’, as elites brasileiras tinham uma ‘febre’ de se parecer com os europeus, principalmente com os franceses! Eles pretendiam construir uma imagem de si mesmos bem distantes dos ‘pobres brasileiros’. Com isso, tudo o quanto era prática das camadas populares por aqui, era mal visto e devia ser evitado. Consequência? A tatuagem passa a ser vista como coisa de ‘gente inferior’. 

Além disso, o pesquisador afirma que o jornal foi um fator importante para a marginalização da tattoo. “As fotografias ainda eram um luxo pros jornais da época - estamos falando dos anos de 1900, 1910, o Brasil ainda é um país rural. Então, quando acontecia um crime, por exemplo, a descrição da cena era bem detalhada, a mesma coisa com o criminoso. Com isso, a tatuagem começou a aparecer constantemente nas páginas dos jornais relacionadas à descrição dos criminosos, mais lenha na fogueira do preconceito! Além, é claro, das tatuagens feitas nas cadeias, ajudando a associar a imagem do tatuado à do criminoso”.

FOTO: Correio Paulistano, 1927, em matéria ilustrada sobre tatuagens no Carandirú. 

Com esse cenário, Fernando afirma que fica claro de como o preconceito pode ter sido construído contra os tatuados. Voltando para o tema da pesquisa, o historiador escolheu três pontos de partida:

1º Estudar como o trabalho dos tatuadores mudou;
2º Como os espaços onde as tatuagens eram feitas mudaram;
3º Como os corpos dos tatuados também mudaram ao longo da história.

“Tem sido um percurso bem interessante, porque tenho percebido uma coisa que a gente já tem certa noção na história: as coisas não acontecem ‘desconectadas’. Pra realizar uma pesquisa, o historiador precisa daquilo que chamamos de fontes. Tudo que nos permite "saber" do passado, é uma fonte. E aí o trabalho do historiador se parece com o de um detetive. Nós procuramos um indício aqui, outro ali, e vamos compondo um quadro do que teria acontecido. A tatuagem, de um modo geral, nunca foi um assunto de grande importância pra vida econômica, social ou política do país. Consequentemente ela não está sempre presente, em reportagens bem elaboradas nos jornais. Principalmente porque ferramentas como a internet não existiam nem nos sonhos neste período (talvez nos sonhos, quem sabe). Assim, é bem mais difícil encontrar matérias sem estas ferramentas que popularizam o acesso aos mais diversos conteúdos - como é o caso deste blog, sobre...tatuagem! Eu adoraria que ele fosse escrito em 1900, rs”, relatou Fernando. 

Mas, como a esperança é a última que morre, e quando a gente quer a gente acha (frase de uma stalker), Fernando contou que foram meses remexendo os arquivos de jornais da Bilbioteca Nacional para encontrar, como ele mesmo descreveu, matérias incríveis, feitas em presídios, em portos, em praias, ou mesmo nos antigos ateliês de tatuagem que foram surgindo nos anos de 1960. 

Ele juntou todas essas fontes impressas com outras como fotos, documentários em programas de Tv, matérias em revistas de comportamento, além de  depoimentos dos tatuadores que estão na ativa desde os anos 70 e 80.

“Estamos tentando, com muito cuidado e seriedade, compor uma ideia do que foram as transformações pelas quais a tatuagem passou e ainda passa, ao longo do último século. O historiador, como já disse um dos nossos mais importantes teóricos, não vagueia errante ao passado, mas parte com um objetivo claro, com uma pergunta a ser respondida. Minha pergunta é essa: O que aconteceu para que a tatuagem deixasse de ser um símbolo de marginalidade e passasse a ser um adereço corporal desejado pelas mais diversas idades, classes sociais, religiões? Como dizem alguns dos meus entrevistados: hoje parece que é ao contrário, difícil é quem não tem uma tatuagem”.

Como a pesquisa do Fernando ainda não está finalizada, e precisamos deixar aquele ar de resenha de bons livros, aquele gostinho de quero mais, lá pra meados de abril de 2018 a pesquisa será finalizada e bem provável que no mesmo ano seja publicada, daí retomaremos com a pauta e os desdobramentos que já foram esclarecidos mas não revelados (Esse Fernando adora um suspense).

Pra finalizar, pra quem ainda não viu, este vídeo é a primeira reportagem sobre tatuagem no Brasil, feito pelo Fantástico, na Globo.





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